Em 1640, Étienne Pascal foi nomeado coletor de impostos da Normandia. O trabalho era somar colunas e colunas de valores, noite adentro, e o filho Blaise, então com 17 anos, ajudava. Para piorar, o dinheiro francês não era decimal:

$$1\ \text{livra}=20\ \text{soldos},\qquad 1\ \text{soldo}=12\ \text{dinheiros}.$$

Somar $3$ livras, $15$ soldos e $8$ dinheiros com $2$ livras, $7$ soldos e $9$ dinheiros exige três tipos de “vai um”:

  • dinheiros: $8+9=17$, que é $1$ soldo e $5$ dinheiros;
  • soldos: $15+7+1=23$, que é $1$ livra e $3$ soldos;
  • livras: $3+2+1=6$.

Resultado: $6$ livras, $3$ soldos e $5$ dinheiros. Faça isso mil vezes por noite e você vai errar. Em 1642, Blaise começou a construir uma máquina que não errasse.

Rodas que contam

A ideia da Pascalina é simples. Cada casa do número tem uma roda com os algarismos de $0$ a $9$. Para somar $7$, encaixa-se um estilete no furo do $7$ e gira-se a roda até um batente. O número aparece numa janelinha.

Uma Pascalina decimal, com seis rodas, no Museu de Artes e Ofícios, em Paris. Os modelos para contas de dinheiro tinham também rodas de 20 e de 12 posições, para os soldos e os dinheiros.
Uma Pascalina decimal, com seis rodas, no Museu de Artes e Ofícios, em Paris. Os modelos para contas de dinheiro tinham também rodas de 20 e de 12 posições, para os soldos e os dinheiros.David Monniaux, 2005 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 3.0

O difícil é o “vai um”. Quando a roda das unidades passa de $9$ para $0$, a das dezenas tem de avançar uma posição sozinha. E às vezes isso se propaga:

$$999+1=1000.$$

Aqui um único giro na roda das unidades precisa mover as quatro rodas ao mesmo tempo. Se a força vier toda do dedo de quem gira, as engrenagens emperram.

O saltador

A solução de Pascal foi uma peça chamada saltador: uma pequena alavanca com peso, entre uma roda e a seguinte. Enquanto a roda gira de $0$ a $9$, dois pinos vão levantando o saltador aos poucos. Na passagem do $9$ para o $0$, ele é solto, cai pelo próprio peso e empurra a roda seguinte uma casa para a frente.

A força do “vai um” vem da gravidade, guardada aos poucos durante a contagem. Por isso o transporte pode correr por muitas rodas seguidas sem travar. Na soma $278+145$:

  • unidades: $8+5=13$, a roda mostra $3$ e o saltador empurra a dezena;
  • dezenas: $7+4+1=12$, a roda mostra $2$ e o saltador empurra a centena;
  • centenas: $2+1+1=4$.
Os dois “vai um” da soma 278 + 145. Na Pascalina, cada um deles é a queda de um saltador.
Os dois “vai um” da soma 278 + 145. Na Pascalina, cada um deles é a queda de um saltador.Ilustração original do blog.

Subtrair com uma máquina que só soma

O saltador tinha um preço: as rodas só podiam girar num sentido. Como subtrair, então? Pascal usou o complemento de nove. Em cada janela havia dois números: o algarismo e o que falta para $9$. Para três casas, o complemento de $x$ é $999-x$.

Para calcular $423-145$:

  1. o complemento de $423$ é $999-423=576$;
  2. a máquina soma normalmente: $576+145=721$;
  3. o complemento de $721$ é $999-721=278$.

E de fato $423-145=278$. O motivo é que $999-\big((999-a)+b\big)=a-b$. Só com somas, a máquina subtrai.

Antes e depois

A Pascalina não foi a primeira máquina de calcular: em 1623, o alemão Wilhelm Schickard tinha projetado um “relógio de calcular”, mas ele se perdeu numa guerra e ninguém o conheceu na época. A de Pascal foi a primeira a ser fabricada, vendida e copiada. Trinta anos depois, Leibniz viu uma em Paris e decidiu ir além: queria uma máquina que também multiplicasse.

Exercício: some 596 e 407, acompanhando os “vai um”

Unidades: $6+7=13$, escreve $3$ e vai um. Dezenas: $9+0+1=10$, escreve $0$ e vai um. Centenas: $5+4+1=10$, escreve $0$ e vai um para o milhar. O resultado é $1003$: três saltadores caíram em cascata.

Exercício: calcule 500 − 137 pelo método da Pascalina

O complemento de $500$ é $499$. Somando, $499+137=636$. O complemento de $636$ é $363$. De fato, $500-137=363$.

Fontes: biografia de Pascal, MacTutor · a Pascalina, Musée des Arts et Métiers.


Todos os tópicos de Pascal · ← Os dados do Cavaleiro de Méré e a partilha justa · O hexagrama místico: seis pontos numa cônica →

Créditos das imagens.