Galois e Cayley: uma álgebra para o que não é número
Na madrugada de 30 de maio de 1832, em Paris, um rapaz de vinte anos passou a noite escrevendo. Évariste Galois tinha um duelo marcado para o amanhecer e sabia que provavelmente não sobreviveria. Escreveu uma longa carta ao amigo Auguste Chevalier, resumindo as ideias que a Academia de Ciências tinha recusado ou perdido, e pediu que ela fosse mostrada a Jacobi e a Gauss, “não sobre a verdade, mas sobre a importância destes teoremas”. Na margem de um manuscrito, deixou uma frase que ficou famosa:
Há alguma coisa a completar nesta demonstração. Não tenho tempo.
— Évariste Galois, nota na margem de um manuscrito (1832)
Galois foi ferido no duelo e morreu no dia seguinte. As suas memórias só foram publicadas em 1846, por Joseph Liouville, e levaram décadas para ser entendidas. Elas resolviam uma pergunta de séculos: por que as equações de grau $2$, $3$ e $4$ têm fórmulas com radicais, como a de Bhaskara, e as de grau $5$ em geral não têm? O norueguês Niels Henrik Abel, morto de tuberculose aos 26 anos, já tinha provado em 1824 que não existe uma fórmula geral para o grau $5$. Galois explicou por quê, e para isso inventou uma ideia nova: o grupo.
Uma álgebra de movimentos
A ideia de Galois fica mais fácil de ver com uma figura em vez de uma equação. Recorte um triângulo equilátero de papel, numere os vértices $1$, $2$ e $3$ e desenhe o contorno dele numa folha. De quantas maneiras você pode tirar o triângulo do lugar e recolocá-lo exatamente sobre o contorno? São seis: deixar parado, girar um terço de volta, girar dois terços, ou virar o triângulo do avesso em torno de um dos três eixos de simetria.
Os antigos textos deste site chamavam esses movimentos de $M_1,\dots,M_6$ e escreviam $M_i\star M_j$ para “faça $M_j$ e, depois, $M_i$”. O resultado de dois movimentos seguidos é sempre um terceiro movimento da mesma lista, e é isso que faz deles um grupo. Todas as combinações cabem numa tabela, a que o site chamava de tabuada grupal:
$$\begin{array}{c|cccccc} \star & M_1 & M_2 & M_3 & M_4 & M_5 & M_6\\ \hline M_1 & M_1 & M_2 & M_3 & M_4 & M_5 & M_6\\ M_2 & M_2 & M_3 & M_1 & M_5 & M_6 & M_4\\ M_3 & M_3 & M_1 & M_2 & M_6 & M_4 & M_5\\ M_4 & M_4 & M_6 & M_5 & M_1 & M_3 & M_2\\ M_5 & M_5 & M_4 & M_6 & M_2 & M_1 & M_3\\ M_6 & M_6 & M_5 & M_4 & M_3 & M_2 & M_1 \end{array}$$(a linha diz o movimento feito por último, a coluna, o primeiro). Repare no que aconteceu do ponto de vista semiótico. Um movimento físico, girar ou virar um triângulo, virou um símbolo, e combinar movimentos virou ler uma tabela. Não é mais preciso imaginar o triângulo: a tabuada faz o trabalho.
A ordem importa
A tabuada mostra uma coisa que a multiplicação de números nunca mostrou. Procure $M_2\star M_5$ (linha $M_2$, coluna $M_5$): dá $M_6$. Agora procure $M_5\star M_2$: dá $M_4$.
$$M_2\star M_5=M_6\qquad\text{mas}\qquad M_5\star M_2=M_4.$$A ordem dos fatores altera o produto. Girar e depois virar não é o mesmo que virar e depois girar; teste com o triângulo de papel. Na tabela, isso se vê de relance: ela não é simétrica em relação à diagonal. Os grupos em que a ordem não importa ganharam, em homenagem a Abel, o nome de grupos abelianos. O do triângulo não é um deles.
Galois percebeu que as raízes de uma equação também podem ser “movimentadas”, trocadas entre si sem quebrar as relações algébricas entre elas, e que essas trocas formam um grupo. A equação tem fórmula com radicais exatamente quando o seu grupo pode ser desmontado em pedaços abelianos de um jeito especial. Para o grau $5$, em geral, não pode. A pergunta sobre fórmulas virou uma pergunta sobre tabuadas.
Cayley: um sistema inteiro numa letra
Em 1750, o suíço Gabriel Cramer publicou uma regra para resolver sistemas de equações lineares. Funcionava, mas era descrita em palavras e índices, equação por equação, e ficava ilegível quando o sistema crescia. Faltava uma escrita para o sistema como um todo.
Ela veio em 1858, quando o inglês Arthur Cayley publicou a Memória sobre a teoria das matrizes. A ideia é juntar os coeficientes num quadro e tratar o quadro como uma única coisa. O sistema
$$\begin{cases}2x+y=5\\ x+3y=10\end{cases} \qquad\text{vira}\qquad \begin{pmatrix}2&1\\1&3\end{pmatrix}\begin{pmatrix}x\\y\end{pmatrix}=\begin{pmatrix}5\\10\end{pmatrix}, \qquad\text{ou seja,}\qquad AX=B.$$A semelhança com $ax=b$ não é coincidência: é o motivo de a notação funcionar. Se $ax=b$ se resolve com $x=a^{-1}b$, a escrita sugere que $AX=B$ se resolva com $X=A^{-1}B$, e Cayley mostrou como dar sentido a $A^{-1}$. Ao mesmo tempo, a notação avisa onde a analogia quebra: com matrizes, $AB$ e $BA$ em geral são diferentes. Uma boa notação sugere o que fazer e também deixa ver o que não se pode fazer.
Grupos e matrizes contam a mesma história. No século XIX, a álgebra deixou de ser só a arte de calcular com números desconhecidos e passou a ser a arte de calcular com qualquer coisa que obedeça a regras: movimentos, permutações, quadros de números. A notação foi o que permitiu esse salto. Ao escrever $M_i\star M_j$ ou $AB$, os matemáticos podiam operar com objetos novos usando a mesma mão que operava com $x$ e $y$, e as diferenças (como $AB\ne BA$) ficavam escritas à vista.
Exercício: corrija a posição da sonda
Um problema dos antigos textos do site: uma sonda em forma de triângulo sofre, em sequência, os movimentos $M_5$, $M_4$, $M_3$, $M_6$ e $M_6$ (o primeiro a acontecer é $M_5$). Em que posição ela está, e que movimento a traz de volta?
Pela tabuada, de dentro para fora:
$$M_6\star\big(M_6\star(M_3\star(M_4\star M_5))\big)=M_6\star\big(M_6\star(M_3\star M_3)\big)=M_6\star(M_6\star M_2)=M_6\star M_5=M_2.$$A sonda está como se tivesse girado $120^\circ$. Para voltar, procura-se $X$ com $X\star M_2=M_1$: a tabuada dá $X=M_3$, o giro de $240^\circ$. Ninguém precisou imaginar a sonda girando: bastou ler a tabela.
Exercício: resolva o sistema com matrizes
Para $A=\begin{pmatrix}2&1\\1&3\end{pmatrix}$, temos $\det A=2\cdot3-1\cdot1=5$ e
$$A^{-1}=\frac15\begin{pmatrix}3&-1\\-1&2\end{pmatrix},\qquad X=A^{-1}B=\frac15\begin{pmatrix}3\cdot5-1\cdot10\\-1\cdot5+2\cdot10\end{pmatrix}=\frac15\begin{pmatrix}5\\15\end{pmatrix}=\begin{pmatrix}1\\3\end{pmatrix}.$$Logo $x=1$ e $y=3$. Conferindo: $2+3=5$ e $1+9=10$.
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