Abel deixou aos matemáticos trabalho para cento e cinquenta anos.

— Frase atribuída a Charles Hermite

Abel trabalhou como matemático por menos de oito anos. Nesse tempo, fechou a questão mais antiga da álgebra, deu rigor às séries, criou as funções elípticas e escreveu uma memória que só foi entendida inteiramente décadas depois da sua morte. O seu nome está hoje em mais lugares da matemática que o de quase qualquer outro: grupos abelianos, integrais abelianas, funções abelianas, variedades abelianas, o teorema de Abel, a soma de Abel, o teste de Abel.

A memória de Paris

A obra que Abel entregou à Academia de Paris em 1826, e que Cauchy perdeu, continha um resultado enorme. Ele mostra que, para qualquer curva algébrica, as somas de certas integrais ao longo da curva podem ser reduzidas a um número fixo delas, que só depende da curva. Esse número é o que Riemann, trinta anos depois, chamaria de gênero da curva, o número de “furos” da superfície correspondente. Hoje o resultado se chama teorema de Abel, e dele nasceram a geometria algébrica e a teoria das superfícies de Riemann. Conta-se que Legendre, ao conhecê-lo, o chamou de monumentum aere perennius, “um monumento mais duradouro que o bronze”, com as palavras do poeta latino Horácio.

A história do manuscrito é quase um romance. Depois da morte de Abel, o cônsul da Noruega em Paris pediu à Academia que procurasse o texto. Cauchy o encontrou, e ele foi publicado em 1841, com erros. Durante a impressão, o original desapareceu de novo. Só foi reencontrado em 1952, pelo matemático norueguês Viggo Brun, numa biblioteca de Florença, entre os papéis de um colecionador italiano.

O monumento e o prêmio

O monumento a Abel, de Gustav Vigeland, no parque do Palácio Real, em Oslo. Inaugurado em 1908, mostra um jovem nu de pé sobre duas figuras monstruosas, que muitos leem como as equações do quinto grau e as funções elípticas, vencidas por ele.
O monumento a Abel, de Gustav Vigeland, no parque do Palácio Real, em Oslo. Inaugurado em 1908, mostra um jovem nu de pé sobre duas figuras monstruosas, que muitos leem como as equações do quinto grau e as funções elípticas, vencidas por ele.Wolfmann · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

No fim do século XIX, quando soube que o Prêmio Nobel não teria uma categoria de matemática, o norueguês Sophus Lie propôs criar um prêmio com o nome de Abel. A ideia perdeu força com a morte de Lie, em 1899, e com a separação entre Noruega e Suécia, em 1905. Foi retomada no bicentenário do nascimento de Abel, em 2002: o governo norueguês criou o Prêmio Abel, entregue pela primeira vez em 2003, ao francês Jean-Pierre Serre. Hoje ele é considerado o equivalente ao Nobel na matemática. Em 2015, foi dado a John Nash e Louis Nirenberg.

O que ficou

Selo norueguês de 1929, lançado no centenário da morte de Abel.
Selo norueguês de 1929, lançado no centenário da morte de Abel.Correios da Noruega · Wikimedia Commons · domínio público
  • Álgebra. A impossibilidade da fórmula geral para o grau 5, as equações abelianas e os grupos comutativos.
  • Análise. O rigor nas séries, a série binomial para qualquer expoente e o teorema de Abel sobre as séries de potências.
  • Funções elípticas. A inversão das integrais, a dupla periodicidade e as fórmulas de adição, junto com Jacobi.
  • Geometria algébrica. O teorema de Abel sobre as integrais de funções algébricas, raiz da teoria de Riemann.
  • Geometria clássica. A divisão da lemniscata com régua e compasso, para os mesmos números que o círculo.

Para lembrar

  • Niels Henrik Abel viveu de 1802 a 1829. Fez toda a sua obra entre os 19 e os 26 anos.
  • Não existe fórmula com radicais para a equação geral de grau 5 ou maior: é o teorema de Abel-Ruffini.
  • A série binomial $(1+x)^m=1+mx+\cdots$ converge para $|x|<1$; Abel foi o primeiro a provar isso para qualquer $m$.
  • Invertendo a integral $\int\frac{dt}{\sqrt{1-t^4}}$, obtém-se o seno lemniscático, uma função com dois períodos, um real e um imaginário.
  • O ponto que divide ao meio cada quarto da lemniscata fica a $\sqrt{\sqrt2-1}$ do centro, um número construtível.
  • Um grupo é abeliano quando a ordem das operações não importa; as equações com grupo abeliano se resolvem por radicais.

Fontes: Arild Stubhaug, Niels Henrik Abel and his Times (Springer, 2000) · o Prêmio Abel, Academia Norueguesa de Ciências e Letras · biografia de Abel, MacTutor.


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