O legado de Euclides
Estudou e quase dominou os seis primeiros livros de Euclides depois de ter sido deputado.
— Abraham Lincoln, nota autobiográfica (1860)
Os Elementos são, depois da Bíblia, um dos livros mais vezes copiados, traduzidos e impressos da história. Desde a primeira edição impressa, em Veneza, em 1482, houve mais de mil edições. Durante mais de dois mil anos, “estudar geometria” quis dizer “estudar Euclides”.
As muitas faces de um livro
O antigo curso de trigonometria deste site reunia algumas edições que mudaram a forma de apresentar Euclides:
| Ano | Autor | Edição |
|---|---|---|
| c. 1120 | Adelardo de Bath | Tradução do árabe para o latim |
| 1482 | Erhard Ratdolt | Primeira edição impressa, em Veneza |
| 1570 | Henry Billingsley | Primeira tradução inglesa, com figuras de papel que se dobram em três dimensões |
| 1607 | Matteo Ricci e Xu Guangqi | Tradução chinesa dos seis primeiros livros, em Pequim |
| 1698 | Samuel Reyher | Euclides… mit algebraischen Zeichen, Euclides com sinais algébricos |
| 1847 | Oliver Byrne | The First Six Books of the Elements of Euclid, em que as letras são trocadas por cores |
A edição de Byrne é uma das mais bonitas já impressas. Em vez de “o triângulo $ABC$”, ele desenha o triângulo em amarelo, vermelho e azul, e as demonstrações viram sequências de pequenas figuras coloridas. Na época, foi um fracasso de vendas; hoje é peça de museu e inspiração para designers.
O método
Mais importante que os teoremas foi o método. Isaac Newton escreveu os Principia (1687) imitando os Elementos: definições, axiomas, que ele chamou de leis do movimento, e proposições provadas uma a uma. Espinosa escreveu a sua Ética (1677) “em ordem geométrica”, com definições, axiomas e proposições sobre Deus e a alma. A Declaração de Independência dos Estados Unidos começa por verdades consideradas evidentes, como axiomas, e deduz delas o direito à independência.
Abraham Lincoln, advogado no interior de Illinois, percebeu que não sabia o que significava demonstrar. Para descobrir, conta-se, levava os Elementos nas viagens pelos tribunais; estudou os seis primeiros livros, como ele mesmo registra na citação acima.
Hilbert e a matemática moderna
Em 1899, o alemão David Hilbert publicou os Fundamentos da Geometria, refazendo o trabalho de Euclides com o rigor moderno: vinte axiomas, sem nenhuma lacuna e sem nenhum apelo ao desenho. Os termos “ponto”, “reta” e “plano” deixaram de ter significado próprio; importava só o que os axiomas diziam sobre eles. Esse jeito de fazer matemática, partindo de axiomas explícitos, tornou-se o padrão de todas as áreas no século XX. É, no fundo, o método de Euclides levado às últimas consequências.
O que ficou
- Geometria. Triângulos, círculos, semelhança, áreas e volumes, o teorema de Pitágoras e os cinco poliedros regulares.
- Aritmética. O algoritmo de Euclides, a infinidade dos primos e a construção dos números perfeitos pares, $2^{p-1}(2^p-1)$.
- Álgebra. As identidades do Livro II, que al-Khwarizmi usou para resolver equações do segundo grau.
- Lógica. A ideia de partir de definições e postulados explícitos e provar tudo o mais.
- Novas geometrias. O quinto postulado, que levou à geometria hiperbólica e, por ela, à geometria do espaço-tempo.
Para lembrar
- Euclides viveu em Alexandria por volta de 300 a.C. Quase nada se sabe da sua vida; tudo se sabe da sua obra.
- Os Elementos têm treze livros e 465 proposições, todas deduzidas de definições, cinco postulados e cinco noções comuns.
- Com régua e compasso, dois círculos de raio $AB$ constroem o triângulo equilátero; a área é $\frac{\sqrt3}4s^2$.
- Nos triângulos retângulos, $a^2=b^2+c^2$: os dois retângulos sob a hipotenusa têm as áreas dos dois quadrados dos catetos.
- $(x+5)^2=64$ resolve $x^2+10x=39$: completar o quadrado é álgebra feita com áreas.
- $\operatorname{mdc}(a,b)=\operatorname{mdc}(b,r)$: o algoritmo de Euclides divide até o resto ser zero.
- $p_1p_2\cdots p_n+1$ tem um fator primo fora da lista: os primos não acabam.
- Sem o quinto postulado, existem geometrias em que a soma dos ângulos de um triângulo não é $180°$.
Fontes: Thomas L. Heath, The Thirteen Books of Euclid’s Elements (Dover, 1956), vol. 1 · Benno Artmann, Euclid: The Creation of Mathematics (Springer, 1999) · Euclides, MacTutor.
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