A vida de Alan Turing
Linha do tempo
- 1912Nasce em 23 de junho em Londres. Os pais vivem na Índia.
- 1926Entra no internato de Sherborne.
- 1930Morre Christopher Morcom, o seu melhor amigo.
- 1931Entra no King’s College, em Cambridge.
- 1935É eleito fellow do King’s, aos 22 anos.
- 1936Escreve “Sobre os números computáveis”. Vai para Princeton.
- 1938Doutorado em Princeton. Volta a Cambridge.
- 1939Começa a trabalhar em Bletchley Park, na decifração da Enigma.
- 1940A primeira bomba eletromecânica entra em funcionamento.
- 1945Vai para o Laboratório Nacional de Física, onde projeta o ACE.
- 1948Muda-se para a Universidade de Manchester.
- 1950Publica o artigo do jogo da imitação.
- 1952Publica a teoria da morfogênese. É condenado por homossexualidade.
- 1954Morre em 7 de junho, em Wilmslow, aos 41 anos.
- Nasce em 23 de junho em Maida Vale. Os pais vivem na Índia, e ele é criado por uma família adotiva no sul da Inglaterra.
- No internato, conhece Christopher Morcom, o amigo cuja morte, em 1930, o leva a pensar na relação entre a mente e a matéria.
- Estuda no King’s College, torna-se fellow aos 22 anos e escreve “Sobre os números computáveis”.
- Faz o doutorado com Alonzo Church, que tinha chegado ao mesmo resultado por outro caminho.
- Durante a guerra, chefia a seção que decifra a Enigma da marinha alemã e projeta a bomba eletromecânica.
- No Laboratório Nacional de Física, projeta o ACE, um computador de programa armazenado.
- Programa um dos primeiros computadores, propõe o jogo da imitação e estuda a morfogênese. Morre em Wilmslow, perto da cidade, em 7 de junho de 1954.
- 1912 · Londres
- 1926–1931 · Sherborne
- 1931–1936 · Cambridge
- 1936–1938 · Princeton
- 1939–1945 · Bletchley Park
- 1945–1947 · Teddington
- 1948–1954 · Manchester
Um menino criado longe dos pais
Alan Mathison Turing nasceu em 23 de junho de 1912, em Londres. O pai, Julius, era funcionário do governo britânico na Índia, e a mãe, Ethel Sara, voltou para lá pouco depois do parto. Alan e o irmão mais velho, John, foram criados por um casal de militares aposentados no sul da Inglaterra e só viam os pais nas licenças.
Era um menino desajeitado, de letra horrível, que se interessava por tudo o que fosse natural: plantas, química, mapas, números. Aprendeu a ler sozinho, em três semanas, e fazia experiências com o que encontrava em casa.
Sherborne e Christopher
Em maio de 1926, aos 13 anos, Turing devia começar o internato de Sherborne, no sudoeste da Inglaterra. Era o dia da greve geral, e não havia trens. Ele pedalou de Southampton até a escola, cerca de cem quilômetros, e dormiu numa hospedaria no meio do caminho. Um jornal local noticiou a viagem.
A escola queria formar cavalheiros versados em latim e grego, e o diretor se queixou de que o aluno “estava desperdiçando o seu tempo” com ciência. Turing lia Einstein por conta própria e resolvia problemas avançados sem ter estudado o cálculo.
Em Sherborne conheceu Christopher Morcom, um ano mais velho, também apaixonado por ciência. Christopher foi o seu primeiro grande amigo e, ao que tudo indica, o seu primeiro amor. Em fevereiro de 1930, morreu de tuberculose bovina, em poucos dias. Turing ficou devastado e passou anos pensando se a mente de uma pessoa sobrevive ao corpo e como a mente se liga à matéria. É a pergunta que, vinte anos depois, aparece no jogo da imitação.
Cambridge e o artigo de 1936
Em 1931 entrou no King’s College, em Cambridge, para estudar matemática. Remava, corria longas distâncias e se formou com distinção. Em 1935, aos 22 anos, foi eleito fellow do colégio com uma demonstração do teorema central do limite, a razão pela qual a curva em forma de sino aparece em toda parte. Descobriu depois que o finlandês Jarl Lindeberg já o tinha provado em 1922.
Naquele mesmo ano assistiu a um curso de Max Newman sobre os fundamentos da matemática, e ouviu falar de uma pergunta de David Hilbert: existe um procedimento mecânico capaz de decidir se qualquer afirmação matemática é verdadeira? Para responder, Turing precisou dizer o que é um “procedimento mecânico”. A resposta foi a máquina de Turing, e a conclusão foi que um tal procedimento não existe.
O artigo ficou pronto em maio de 1936. Semanas antes, o americano Alonzo Church tinha publicado o mesmo resultado, por outro caminho. Turing foi então para Princeton fazer o doutorado com Church e voltou em 1938.
Bletchley Park
Em 4 de setembro de 1939, um dia depois de a Inglaterra entrar na guerra, Turing se apresentou em Bletchley Park, uma propriedade rural onde o governo reunia matemáticos, linguistas e jogadores de xadrez para ler as mensagens alemãs. Ali chefiou o Barracão 8, encarregado da Enigma da marinha, a mais difícil de todas. Projetou a bomba eletromecânica que testava milhares de chaves por hora e inventou um método estatístico, o banburismo, para economizar o trabalho das bombas.
Os colegas lembravam-se do excêntrico que prendia a caneca ao radiador com um cadeado e pedalava de máscara de gás por causa da alergia ao pólen. Em 1941, Turing e três colegas escreveram diretamente a Winston Churchill pedindo mais pessoal. Churchill respondeu com uma ordem: “Ação hoje mesmo”. Pelo trabalho na guerra, Turing recebeu a Ordem do Império Britânico em 1946, mas não podia contar a ninguém o motivo. O segredo durou até os anos 1970.
Os primeiros computadores
Depois da guerra, no Laboratório Nacional de Física, em Teddington, Turing projetou o ACE, um computador eletrônico que guardava o programa na memória, como a máquina universal do artigo de 1936. O projeto atrasou, e ele se mudou em 1948 para a Universidade de Manchester, onde funcionava um dos primeiros computadores do mundo. Escreveu o manual de programação da máquina, incluindo uma instrução para fazê-la tocar notas, de onde saíram algumas das primeiras músicas tocadas por computador, e criou com um amigo um programa de xadrez que ele próprio executava à mão, por falta de máquina rápida o bastante.
Em 1950 publicou o artigo do jogo da imitação e, em 1952, a teoria da morfogênese. Em 1951 tinha sido eleito para a Royal Society.
A condenação e a morte
Em janeiro de 1952, a casa de Turing em Wilmslow, perto de Manchester, foi assaltada. Ao contar à polícia que o ladrão era conhecido de um homem com quem ele tinha um relacionamento, Turing acabou acusado de “indecência grave”: relações entre homens eram crime na Inglaterra. Declarou-se culpado e, para não ir para a prisão, aceitou um ano de tratamento com hormônios femininos. Perdeu a autorização para trabalhar em segredos de Estado.
Continuou trabalhando em Manchester. Em 8 de junho de 1954, a empregada o encontrou morto em casa. A investigação concluiu que tinha ingerido cianeto e registrou suicídio. Havia uma maçã mordida ao lado da cama, que nunca foi analisada. A mãe sempre sustentou que tinha sido um acidente com os produtos químicos das suas experiências.
Exercício: quantos anos viveu cada período?
Turing nasceu em 1912 e morreu em 1954. Quanto tempo passou entre o artigo de 1936 e a sua morte? E entre o fim da guerra e a condenação?
De 1936 a 1954 são 18 anos: toda a computação moderna que Turing viu nascer cabe nesse intervalo. Do fim da guerra, em 1945, à condenação, em 1952, são apenas 7 anos.
Exercício: cem quilômetros de bicicleta
Turing pedalou cerca de 100 km em dois dias. Se pedalou 6 horas por dia, qual foi a velocidade média?
Em 12 horas, $\frac{100}{12}\approx8{,}3$ km/h. É um passeio tranquilo, mas longo para um menino de 13 anos numa bicicleta de 1926.
Fontes: Andrew Hodges, Alan Turing: The Enigma (1983) · biografia de Turing, MacTutor · The Turing Digital Archive, King’s College.
Todos os tópicos de Alan Turing · A máquina de Turing: calcular com lápis, fita e regras →