O pai da teoria dos números

Folha de rosto da edição de 1670 da *Aritmética* de Diofanto, impressa em Toulouse “com as observações de P. de Fermat”. Foi por este livro, publicado pelo filho cinco anos depois da morte do pai, que as notas da margem chegaram a Euler.
Folha de rosto da edição de 1670 da Aritmética de Diofanto, impressa em Toulouse “com as observações de P. de Fermat”. Foi por este livro, publicado pelo filho cinco anos depois da morte do pai, que as notas da margem chegaram a Euler.Bernard Bosc, Toulouse (1670) · Wikimedia Commons · domínio público

Antes de Fermat, os problemas sobre números inteiros eram vistos como enigmas, quebra-cabeças de Diofanto. Fermat os transformou numa área da matemática, com perguntas profundas e métodos próprios. Durante quase um século, quase ninguém o acompanhou. Foi Euler, a partir de 1730, quem leu as notas de Fermat, provou boa parte delas e fez da teoria dos números um ramo central da matemática. Depois vieram Lagrange, Legendre e Gauss.

Outras descobertas

A lista completa seria longa. Alguns destaques:

  • Soma de dois quadrados: um primo ímpar é soma de dois quadrados exatamente quando deixa resto 1 na divisão por 4. Por exemplo, $13=4+9$ e $29=4+25$, mas $7$ e $11$ não são. Fermat anunciou em 1640; Euler provou em 1749.
  • Equação de Pell: a equação $x^2-Ny^2=1$, com que Fermat desafiou os ingleses, tem sempre infinitas soluções quando $N$ não é um quadrado.
  • Números poligonais: todo número inteiro positivo é soma de no máximo três números triangulares, quatro quadrados, cinco pentagonais, e assim por diante. Lagrange provou o caso dos quadrados em 1770; Gauss, o dos triangulares em 1796.
  • Retificação de curvas: Fermat calculou o comprimento de alguns arcos de curva, outro problema que preparou o cálculo.

O caminho até o cálculo

A geometria analítica de Fermat permitiu escrever curvas como equações. Seu método de máximos e mínimos achava tangentes e extremos com uma conta que é, na essência, a derivada. Calculou também áreas sob curvas do tipo $y=x^n$. Faltou apenas perceber que tangentes e áreas são operações inversas, o passo que Newton e Leibniz dariam.

Na física, o princípio do tempo mínimo explica a reflexão e a refração que se estudam na escola, e abriu o caminho para os princípios de otimização da física moderna.

Uma conjectura errada também ensina

Fermat errou ao supor que todos os números $2^{2^n}+1$ são primos. Mesmo assim, a pergunta levou Euler a técnicas novas e reapareceu, de forma inesperada, no polígono de 17 lados de Gauss. Na matemática, uma boa pergunta vale muito, mesmo quando a resposta contraria o palpite.

E o último teorema, com ou sem a prova “maravilhosa” de Fermat, obrigou os matemáticos a criar teorias inteiras para resolvê-lo. A prova de Wiles uniu duas áreas que pareciam distantes, e essas ferramentas hoje são usadas muito além do problema original.

Para lembrar

O monumento a Fermat em Beaumont-de-Lomagne, a cidade onde ele nasceu, obra do escultor Alexandre Falguière.
O monumento a Fermat em Beaumont-de-Lomagne, a cidade onde ele nasceu, obra do escultor Alexandre Falguière.Didier Descouens · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0
  • Fermat era juiz em Toulouse e fazia matemática por prazer; publicou quase nada em vida.
  • Seu nascimento é dado como 1601 ou 1607, porque havia um meio-irmão com o mesmo nome.
  • Criou a geometria analítica independentemente de Descartes.
  • Seu método de adequação achava máximos e mínimos antes do cálculo de Newton e Leibniz.
  • O pequeno teorema diz que $a^{p-1}\equiv1\pmod p$ para $p$ primo que não divide $a$.
  • Conjecturou que todos os $2^{2^n}+1$ são primos; Euler mostrou que $F_5$ é múltiplo de 641.
  • Com Pascal, em 1654, fundou a teoria das probabilidades com o problema dos pontos.
  • O princípio do tempo mínimo explica a lei da refração.
  • A descida infinita prova que certas equações não têm solução em inteiros.
  • O último teorema esperou 358 anos e foi provado por Andrew Wiles em 1995.

Fontes: vida e contribuições de Fermat, MacTutor.


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