Euler e as funções: dar nome a uma regra
Se existe alguém que merece o título de “arquiteto da notação moderna”, é Leonhard Euler. Ele escreveu mais páginas de matemática do que qualquer pessoa na história, e escreveu para ser lido: seus livros eram usados para ensinar, e as convenções que ele adotava se espalhavam junto com eles. Muitos símbolos que parecem ter existido sempre passaram pelas mãos dele.
- 1706William Jones usa $\pi$ para a razão entre a circunferência e o diâmetro. Quase ninguém repara.
- 1727Num manuscrito, Euler chama de $e$ o número cujo logaritmo é $1$.
- 1734Euler escreve $f\!\left(\frac{x}{a}+c\right)$: é o nascimento da notação $f(x)$ para funções.
- 1736Na Mechanica, Euler adota o $\pi$ de Jones; com a Introductio (1748), o símbolo vira padrão.
- 1755Euler usa $\Sigma$ para indicar uma soma.
- 1777Euler usa $i$ para $\sqrt{-1}$, num texto publicado só depois da sua morte.
O que esses símbolos têm em comum é que cada um transforma uma descrição num nome. Antes de Euler, para falar de uma função era preciso descrever a regra (“a quantidade formada de $x$ elevando ao quadrado e somando um”). Depois de $f(x)$, a regra ganha um nome curto, e um nome pode entrar em outras contas: $f(x+h)-f(x)$, $f(g(x))$, $f'(x)$. A função vira um objeto que se manipula como se manipulava um número. Para mais detalhes sobre cada símbolo, veja a linguagem que Euler nos deixou.
A função, uma frase com um buraco
A palavra função vem do latim functio, do verbo fungi: cumprir uma tarefa, exercer um ofício. Uma função é algo que faz alguma coisa. O símbolo levou quase cem anos para chegar ao $f(x)$:
| Ano | Autor | Como a função aparecia |
|---|---|---|
| 1637 | René Descartes | uma equação entre $x$ e $y$, ligada a uma curva |
| 1667 | James Gregory | quantitas, uma quantidade obtida de outras |
| 1671 | Isaac Newton | fluente, a grandeza que flui |
| 1673 | Leibniz | a palavra functio |
| 1718 | Johann Bernoulli | $\varphi x$, sem parênteses |
| 1734 | Leonhard Euler | $f\!\left(\frac{x}{a}+c\right)$, com parênteses |
| 1837 | Peter Gustav Lejeune Dirichlet | a definição moderna: qualquer regra que associe a cada $x$ um único $y$ |
Os antigos textos deste site propunham uma maneira curiosa de ler uma função: como uma frase com um buraco. A função “dobrar” seria
$$f=2\cdot(\quad),$$uma instrução à espera de um número. Pôr $3$ no buraco dá $f(3)=2\cdot3=6$; pôr $x$ dá $f(x)=2x$. A função “subtrair dois” seria $(\quad)-2$, e “$(\quad)-1$ vezes $(\quad)-3$” descreve uma parábola que corta o eixo em $1$ e em $3$.
A ideia não é só didática. Em 1891, Gottlob Frege, de quem falaremos no texto sobre a lógica, defendeu exatamente isso no ensaio Função e conceito: uma função é uma expressão insaturada, com um lugar vazio, como $2\cdot(\quad)^3+(\quad)$, que só vira um número quando o vazio é preenchido. O $x$ de Euler é o jeito econômico de marcar esse buraco, e os parênteses de $f(x)$ desenham, literalmente, o lugar onde a entrada se encaixa.
Exercício: preencha o buraco
A função $g=(\quad)^2-1$ recebe um número, eleva ao quadrado e tira $1$. Então $g(3)=3^2-1=8$, $g(-3)=8$ e $g(0)=-1$. Escrevendo o buraco com a letra de Euler: $g(x)=x^2-1$. E $g(x+1)$? Basta pôr $x+1$ inteiro no buraco: $g(x+1)=(x+1)^2-1=x^2+2x$. Quem não pensa no buraco costuma escrever $x^2-1+1$, o que é outra função.
Exercício: f(x+h) − f(x)
Para $f(x)=x^2$, calcule $f(x+h)-f(x)$. Pondo $x+h$ no buraco: $(x+h)^2-x^2=2xh+h^2$. Dividindo por $h$: $2x+h$, que tende a $2x$ quando $h$ tende a zero. É a derivada de $x^2$, e a conta só fica tão curta porque a notação de Euler deixa escrever “o valor da função num ponto vizinho” em quatro sinais.
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