A arte de conjecturar: contar as chances
Conjecturar uma coisa é medir a sua probabilidade. Por isso definimos a arte de conjecturar, ou estocástica, como a arte de medir o mais exatamente possível as probabilidades das coisas, para que, nos nossos juízos e ações, possamos sempre escolher ou seguir aquilo que nos pareça melhor, mais satisfatório, mais seguro ou mais ponderado.
— Jakob Bernoulli, Ars conjectandi (1713), parte IV
Em 1654, Pascal e Fermat trocaram cartas sobre como dividir o dinheiro de um jogo interrompido. Em 1657, o holandês Christiaan Huygens publicou um livrinho de quinze páginas sobre os cálculos dos jogos de dados. Eram problemas de salão: dados, cartas, apostas.
Jakob Bernoulli queria muito mais. Para ele, a probabilidade era uma medida da certeza, um número entre 0, o impossível, e 1, o certo, que serviria para julgar testemunhos num tribunal, prever quanto tempo uma pessoa vai viver, avaliar um seguro ou decidir se um remédio funciona. Passou vinte anos escrevendo o livro que mostraria como. Chamou-o Ars conjectandi, “A arte de conjecturar”.
Um livro em quatro partes
A Ars conjectandi tem quatro partes. A primeira reproduz o livro de Huygens, com comentários de Jakob que são maiores que o original. A segunda é um curso completo de combinatória: permutações, combinações e, no meio delas, as somas de potências que hoje levam o nome de Jakob. A terceira aplica tudo a dezenas de jogos. A quarta, inacabada, trata da probabilidade na vida civil, moral e econômica, e é ali que está o teorema de ouro.
O ensaio de Bernoulli
A ideia mais simples do livro virou uma das mais usadas da estatística. Imagine uma experiência com só dois resultados possíveis: a moeda dá cara ou não, o paciente se cura ou não, a peça sai com defeito ou não. Um dos resultados é chamado de sucesso, com probabilidade $p$, e o outro de fracasso, com probabilidade $q=1-p$. A palavra é só um rótulo: numa fábrica, o “sucesso” contado pode ser encontrar um defeito.
Hoje uma experiência assim se chama ensaio de Bernoulli. A pergunta de Jakob era: repetindo o ensaio $n$ vezes, sempre nas mesmas condições e sem que um resultado influencie o outro, qual é a probabilidade de obter exatamente $k$ sucessos?
A fórmula, passo a passo
Comece com um caso pequeno. Um dado é lançado 3 vezes, e “sucesso” é tirar um 6, com $p=\frac16$. Qual é a chance de exatamente dois 6?
Uma sequência possível é 6, 6, outro. A sua probabilidade é o produto das chances de cada lançamento:
$$\frac16\cdot\frac16\cdot\frac56=\frac5{216}.$$Mas há outras ordens com dois 6: 6, outro, 6 e outro, 6, 6. Cada uma tem a mesma probabilidade, $\frac5{216}$, porque os mesmos fatores aparecem em outra ordem. São 3 ordens, então
$$P(\text{dois 6})=3\cdot\frac5{216}=\frac{15}{216}\approx6{,}9\%.$$O número de ordens é o número de maneiras de escolher quais lançamentos dão sucesso: escolher 2 entre 3, ou $\binom32=3$. No caso geral, cada sequência com $k$ sucessos e $n-k$ fracassos tem probabilidade $p^kq^{n-k}$, e há $\binom nk$ delas. Somando:
$$\boxed{P(k\text{ sucessos em }n\text{ ensaios})=\binom nk\,p^k\,q^{n-k}}$$Os coeficientes $\binom nk$ são os números do triângulo de Pascal, e as probabilidades são os termos do desenvolvimento de $(p+q)^n$. Por isso a fórmula se chama distribuição binomial. Como $p+q=1$, a soma de todas as probabilidades é $(p+q)^n=1$, como deve ser.
Um problema de Huygens
Na primeira parte, Jakob comenta uma pergunta do livro de Huygens: quantas vezes é preciso lançar um dado para que a chance de sair pelo menos um 6 passe de metade? A conta é mais fácil pelo outro lado. A chance de nenhum 6 em $n$ lançamentos é $\left(\frac56\right)^n$, então
$$P(\text{pelo menos um 6})=1-\left(\frac56\right)^n.$$Com $n=3$, dá $1-\frac{125}{216}\approx42\%$. Com $n=4$, dá $1-\frac{625}{1296}\approx51{,}8\%$. Quatro lançamentos bastam. Era exatamente a aposta do cavaleiro de Méré que tinha motivado as cartas de Pascal e Fermat.
Exercício: num teste de 10 questões com 4 alternativas cada, qual é a chance de acertar exatamente 5 chutando todas?
Cada questão é um ensaio com $p=\frac14$ e $q=\frac34$. Então
$$P=\binom{10}5\left(\frac14\right)^5\left(\frac34\right)^5=252\cdot\frac{3^5}{4^{10}}=252\cdot\frac{243}{1\,048\,576}\approx5{,}8\%.$$O mais provável, chutando, é acertar 2 questões: $\binom{10}2\frac{3^8}{4^{10}}\approx28{,}2\%$.
Exercício: um casal planeja quatro filhos. Supondo chance 1/2 para cada sexo, o que é mais provável: dois meninos e duas meninas, ou três de um sexo e um do outro?
Dois e dois: $\binom42\frac1{16}=\frac6{16}$. Três de um sexo e um do outro: há $\binom43=4$ maneiras de ter três meninos e outras 4 de ter três meninas, ou $\frac8{16}$. O caso “desequilibrado” é mais provável, ao contrário do que a intuição costuma dizer.
Fontes: Jakob Bernoulli, The Art of Conjecturing, tradução e introdução de Edith Dudley Sylla (Johns Hopkins, 2006) · Anders Hald, A History of Probability and Statistics and Their Applications before 1750 (Wiley, 1990) · biografia de Jacob Bernoulli, MacTutor.
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