O pequeno teorema de Fermat: potências e restos
Pegue o número 2 e eleve a potências cada vez maiores. Divida cada resultado por 7 e anote o resto:
| Potência | $2^1$ | $2^2$ | $2^3$ | $2^4$ | $2^5$ | $2^6$ |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Valor | 2 | 4 | 8 | 16 | 32 | 64 |
| Resto por 7 | 2 | 4 | 1 | 2 | 4 | 1 |
Em $2^6$, o resto é 1. Agora tente com 3 e o primo 5: $3^4=81$, que deixa resto 1 na divisão por 5. E com 10 e o primo 13: $10^{12}=1\,000\,000\,000\,000$, que também deixa resto 1 na divisão por 13.
Coincidência? Não. É o pequeno teorema de Fermat.
O enunciado
Se $p$ é um número primo e $a$ é um inteiro que não é múltiplo de $p$, então $a^{p-1}$ deixa resto 1 na divisão por $p$. Em notação de congruências, criada por Gauss em 1801:
$$a^{p-1}\equiv1\pmod p.$$O nome “pequeno” serve só para distingui-lo do último teorema. Na prática, o pequeno é muito mais útil.
Uma carta sem prova
Fermat anunciou o teorema numa carta de 18 de outubro de 1640 ao matemático Bernard Frénicle de Bessy. Como de costume, não mostrou a demonstração:
Eu lhe enviaria a demonstração, se não temesse que fosse longa demais.
— Fermat, carta a Frénicle de Bessy (1640)
A primeira prova publicada foi de Leonhard Euler, em 1736, quase cem anos depois. Soube-se mais tarde que Leibniz também tinha uma prova, por volta de 1683, que nunca publicou.
Uma prova por embaralhamento
Vamos provar o teorema para $p=7$ e $a=3$; o argumento geral é idêntico.
Escreva os números $1,2,3,4,5,6$. Multiplique cada um por 3 e pegue o resto por 7:
$$3,\ 6,\ 9\to2,\ 12\to5,\ 15\to1,\ 18\to4.$$Os restos são $3,6,2,5,1,4$: os mesmos números de antes, embaralhados. Isso sempre acontece. Nenhum resto pode ser 0, porque $p$ não divide $a$ nem $k$. E não há restos repetidos, porque se $ai$ e $aj$ deixassem o mesmo resto, $p$ dividiria $a(i-j)$ e, portanto, $i-j$, o que é impossível para dois números distintos entre 1 e $p-1$.
Como os dois conjuntos são iguais, os produtos também deixam o mesmo resto:
$$(3\cdot1)(3\cdot2)\cdots(3\cdot6)\equiv1\cdot2\cdots6\pmod7,$$ou seja, $3^6\cdot6!\equiv6!\pmod7$. Como 7 é primo e não divide $6!$, podemos cancelar o $6!$ e concluir que $3^6\equiv1\pmod7$. Confira: $3^6=729=7\cdot104+1$.
Contas enormes com pouco esforço
Quanto é o resto de $3^{100}$ na divisão por 7? Sem o teorema, seria preciso calcular um número de 48 algarismos. Com ele: $3^6\equiv1$, e $100=6\cdot16+4$. Então
$$3^{100}=\left(3^6\right)^{16}\cdot3^4\equiv1^{16}\cdot81\equiv4\pmod7.$$Essa capacidade de reduzir potências gigantescas é a base do sistema RSA, que protege compras e senhas na internet. O RSA usa uma generalização do teorema feita por Euler, contada na trilha de Euler.
Cuidado com a volta
Se $p$ é primo, então $a^{p-1}\equiv1$. Mas a recíproca é falsa: um número pode passar no teste sem ser primo. O menor exemplo traiçoeiro é $561=3\cdot11\cdot17$, que satisfaz $a^{560}\equiv1\pmod{561}$ para todo $a$ sem fatores em comum com 561. Números assim se chamam números de Carmichael. Por isso o teorema serve para mostrar que um número não é primo, mas não basta para mostrar que é.
Exercício: qual o resto de 3¹⁰ na divisão por 11?
11 é primo e não divide 3, então $3^{10}\equiv1\pmod{11}$. O resto é 1. Confira: $3^{10}=59\,049=11\cdot5368+1$.
Exercício: qual o resto de 2¹⁰⁰ na divisão por 13?
$2^{12}\equiv1\pmod{13}$ e $100=12\cdot8+4$. Então $2^{100}\equiv2^4=16\equiv3\pmod{13}$. O resto é 3.
Fontes: biografia de Fermat, MacTutor.
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