Congruência de segmentos
Dois segmentos são congruentes quando um pode ser “colocado” sobre o outro. É a forma geométrica de dizer que têm o mesmo tamanho — sem precisar de régua graduada.
Quem descobriu
Euclides tratou o tema logo no início dos Elementos (c. 300 a.C.). Sua noção comum 4 diz que “coisas que coincidem umas com as outras são iguais”, e as proposições I.2 e I.3 mostram como transportar um segmento e como cortar, de um segmento maior, um pedaço igual a um menor. O mais curioso é a ferramenta: Euclides só admite um compasso que “fecha” quando sai do papel e, mesmo assim, prova que é possível copiar distâncias.
A história
Na geometria grega não se comparava comprimentos com números. Dois segmentos eram iguais, maiores ou menores, e isso se decidia com régua sem marcas e compasso. Somar segmentos era colocá-los um após o outro; tirar um do outro era sobrepor e ver o que sobrava.
Essa maneira de trabalhar tem uma vantagem: os resultados valem para qualquer unidade de medida, até para comprimentos que não são múltiplos exatos de nenhuma unidade — um problema que os gregos conheciam bem. Na axiomática de Hilbert (1899), a congruência de segmentos virou um termo primitivo, com axiomas próprios.
No dia a dia
- Compasso de pontas secas. Marceneiros e serralheiros copiam uma medida de uma peça para outra sem ler números — é a proposição I.2 na oficina.
- Moldes de costura. Riscar o tecido seguindo o molde garante que as duas mangas sejam congruentes.
- Peças de reposição. Um parafuso “padrão” serve em qualquer máquina porque as medidas são congruentes às da peça original.
- Cortar várias tábuas iguais. O carpinteiro mede a primeira e usa a própria tábua como gabarito para as outras.
Fontes: Elementos, proposição I.2 · Elementos, proposição I.3 · Euclides (MacTutor).
Teoria e construções
A congruência de segmentos (símbolo $\equiv$) é uma noção primitiva. Intuitivamente, segmentos congruentes “têm o mesmo tamanho”: um pode ser levado sobre o outro. Ela obedece aos postulados:
PostuladoCongruência de segmentos
- Reflexiva: todo segmento é congruente a si mesmo: $\overline{AB} \equiv \overline{AB}$.
- Simétrica: se $\overline{AB} \equiv \overline{CD}$, então $\overline{CD} \equiv \overline{AB}$.
- Transitiva: se $\overline{AB} \equiv \overline{CD}$ e $\overline{CD} \equiv \overline{EF}$, então $\overline{AB} \equiv \overline{EF}$.
- Transporte de segmentos: dados um segmento $\overline{AB}$ e uma semirreta de origem $A^{\prime}$, existe sobre essa semirreta um único ponto $B^{\prime}$ tal que $\overline{A^{\prime}B^{\prime}} \equiv \overline{AB}$.
O transporte é o que fazemos com um compasso: abrimos o compasso no tamanho de um segmento e marcamos esse tamanho a partir de outro ponto.
Comparação de segmentos
Dados $\overline{AB}$ e $\overline{CD}$, transportamos $\overline{CD}$ para a semirreta $\overrightarrow{AB}$ e obtemos um ponto $P$ com $\overline{AP} \equiv \overline{CD}$. Há três possibilidades:
| Posição de $P$ | Conclusão |
|---|---|
| $P$ está entre $A$ e $B$ | $\overline{AB}$ é maior que $\overline{CD}$: $\overline{AB} > \overline{CD}$ |
| $P$ coincide com $B$ | $\overline{AB}$ é congruente a $\overline{CD}$: $\overline{AB} \equiv \overline{CD}$ |
| $B$ está entre $A$ e $P$ | $\overline{AB}$ é menor que $\overline{CD}$: $\overline{AB} < \overline{CD}$ |
Adição de segmentos
DefiniçãoSoma, múltiplo e submúltiplo
Dados $\overline{AB}$ e $\overline{CD}$, tomamos numa semirreta de origem $R$ os segmentos adjacentes $\overline{RP} \equiv \overline{AB}$ e $\overline{PT} \equiv \overline{CD}$. O segmento $\overline{RT}$ é a soma de $\overline{AB}$ com $\overline{CD}$:
$$\overline{RT} = \overline{AB} + \overline{CD} \qquad\text{e também}\qquad \overline{RT} = \overline{RP} + \overline{PT}.$$O segmento $\overline{RS}$, soma de $n$ segmentos congruentes a $\overline{AB}$, é múltiplo de $\overline{AB}$ segundo $n$: $\overline{RS} = n \cdot \overline{AB}$. Nesse caso, $\overline{AB}$ é submúltiplo de $\overline{RS}$ segundo $n$.