Leibniz contra os pontos: notação ativa e notação estéril
Em 29 de outubro de 1675, em Paris, Leibniz estava somando infinitas fatias finas debaixo de uma curva e cansou de escrever omnia, “todas”, na frente de cada soma. Anotou no caderno:
Utile erit scribi ∫ pro omnia. (Será útil escrever ∫ em vez de “todas”.)
— Leibniz, manuscrito de 29 de outubro de 1675
O $\int$ é um S esticado, de summa. Duas semanas depois, no mesmo caderno, apareceu o $d$, de differentia, para as diferenças infinitamente pequenas. Com esses dois sinais, Leibniz tinha nas mãos uma linguagem para o cálculo inteiro. Isaac Newton tinha chegado às mesmas ideias dez anos antes, em Cambridge, mas escrevia de outro jeito. Esse é o melhor caso da história para ver como a forma de um signo muda o que se consegue fazer com ele.
Duas escritas para a mesma ideia
Newton pensava em grandezas que fluem com o tempo, como a posição de um corpo em movimento. Chamava a grandeza de fluente e a sua velocidade de variação de fluxão, e passou a marcar a fluxão com um ponto em cima da letra: se a fluente é $x$, a fluxão é $\dot{x}$; a fluxão da fluxão é $\ddot{x}$.
Leibniz pensava em diferenças minúsculas entre valores vizinhos. A diferença de $x$ é $dx$, a de $y$ é $dy$, e a taxa de variação é a razão entre elas, $\dfrac{dy}{dx}$. Lado a lado:
| O que se quer dizer | Newton | Leibniz |
|---|---|---|
| taxa de variação de $y$ | $\dot y$ | $\dfrac{dy}{dx}$ |
| em relação a quê? | ao tempo (implícito) | a $x$ (escrito) |
| segunda derivada | $\ddot y$ | $\dfrac{d^2y}{dx^2}$ |
| soma de fatias | sem sinal consolidado | $\displaystyle\int y\,dx$ |
| regra da cadeia | lembrar a regra | $\dfrac{dz}{dx}=\dfrac{dz}{dy}\cdot\dfrac{dy}{dx}$ |
O ponto de Newton é mais curto. Mas repare no que ele esconde: a variável em relação à qual se deriva. Para Newton, era sempre o tempo, e isso estava certo na física dele. Quando uma grandeza depende de outra que não é o tempo, ou de várias ao mesmo tempo, o ponto não tem onde dizer isso.
As palavras por trás dos sinais
Os nomes desse cálculo também guardam imagens. Derivar vem do latim derivare, de de (a partir de) e rivus (riacho): desviar a água de um rio para um canal. A derivada é o que “escorre” de uma função. Tangente vem de tangere, tocar: é a reta que apenas toca a curva num ponto. A differentia de Leibniz vem de differre, separar, levar para lados diferentes: é a pequena distância entre dois valores vizinhos. E a fluxão de Newton é, literalmente, o fluxo, aquilo que flui. Em 1704, no Tractatus de quadratura curvarum, Newton anunciou os seus pontos assim:
Sejam x, y, z quantidades fluentes; as suas fluxões serão designadas por estas notas: ẋ, ẏ, ż.
— Isaac Newton, De quadratura curvarum (1704)
Depois de Newton e Leibniz, outros autores criaram escritas próprias, e cada uma deixa à vista uma parte diferente da mesma ideia:
| Autor | Escrita | O que ela mostra | O que ela esconde |
|---|---|---|---|
| Newton (anos 1690) | $\dot y$ | a variação no tempo | a variável |
| Leibniz (1675) | $\dfrac{dy}{dx}$ | a razão entre variações; a regra da cadeia | que não é uma fração comum |
| Lagrange (1797) | $f'(x)$ | que a derivada é outra função | a variável em relação à qual se deriva |
| Arbogast (1800) | $Df$ | que derivar é uma operação sobre funções | o ponto e a variável |
Nenhuma venceu sozinha. Hoje um mesmo livro usa $f'(x)$ para falar da função derivada, $\frac{dy}{dx}$ para fazer contas com a regra da cadeia e $\dot x$ para a velocidade. Saber trocar de escrita conforme o problema é parte de saber cálculo.
A notação que faz contas sozinha
Leibniz escolheu sinais que se comportam como frações. Não são frações de verdade (o significado rigoroso de $dy$ e $dx$ só foi esclarecido no século XIX, com os limites), mas a escrita foi desenhada para que as manipulações de fração deem o resultado certo nos casos em que deveriam dar. A regra da cadeia é o exemplo clássico: $\dfrac{dz}{dy}\cdot\dfrac{dy}{dx}$ “cancela” o $dy$ e dá $\dfrac{dz}{dx}$. A regra está desenhada na própria forma do símbolo.
Veja uma conta que os antigos textos deste site usavam como exemplo. Para derivar $f=(x^5-2x)^{\pi}$, chame o que está dentro dos parênteses de $u$:
$$u=x^5-2x,\qquad f=u^{\pi}.$$Então
$$\frac{df}{dx}=\frac{df}{du}\cdot\frac{du}{dx}=\pi\,u^{\pi-1}\cdot(5x^4-2)=\pi\,(x^5-2x)^{\pi-1}(5x^4-2).$$Quem escreve com a notação de Leibniz não precisa lembrar que tem de multiplicar pela derivada de dentro. A escrita pede isso: falta um $du$ para cancelar, e a única maneira de conseguir é escrever $\frac{du}{dx}$. Para ver o jogo das frações de perto, com números, veja o capítulo sobre a notação de Leibniz.
Isso é o que chamamos, desde o primeiro texto, de notação ativa. Leibniz sabia muito bem o que estava fazendo:
Nos símbolos, observa-se uma vantagem para a descoberta que é maior quando eles exprimem a natureza exata de uma coisa de forma breve e, por assim dizer, a retratam. Então, de fato, o trabalho do pensamento é maravilhosamente reduzido.
— Leibniz, carta a Tschirnhaus (1678)
O mesmo vale para o $dx$ dentro da integral. Ele parece um enfeite, mas trabalha. Para calcular $\int 2x\,(x^2+1)^3\,dx$, faça $u=x^2+1$. Então $\frac{du}{dx}=2x$, e a escrita de Leibniz convida a “passar o $dx$ para o outro lado”: $du=2x\,dx$. A integral vira
$$\int u^3\,du=\frac{u^4}{4}+C=\frac{(x^2+1)^4}{4}+C.$$É a regra da substituição, e, de novo, ela está desenhada na escrita.
A Inglaterra presa aos pontos
Depois da disputa amarga sobre quem tinha inventado o cálculo primeiro, os matemáticos ingleses fecharam questão: usariam os pontos de Newton, por lealdade. O continente usou os $d$ de Leibniz. Ao longo do século XVIII, quase todos os grandes avanços da análise vieram do continente: os Bernoulli, Euler, Lagrange, Laplace. Os ingleses, com uma notação que não sugeria nada, ficaram para trás por mais de cem anos. Os antigos textos deste site resumiam assim: a notação de Newton era estéril.
Seria injusto dizer que o ponto de Newton morreu. Na física, quando a variável é o tempo, ele é curto e claro, e até hoje se escreve $\dot x$ para a velocidade e $\ddot x$ para a aceleração. O ponto é estéril como linguagem para o cálculo inteiro, não como abreviação para um caso particular. Esse é, aliás, um bom critério: uma notação é ativa quando continua funcionando ao ser levada para problemas novos.
Exercício: a regra da cadeia escrita por Leibniz
Derive $z=(3x^2+1)^4$. Com $y=3x^2+1$, temos $z=y^4$, e
$$\frac{dz}{dx}=\frac{dz}{dy}\cdot\frac{dy}{dx}=4y^3\cdot6x=24x\,(3x^2+1)^3.$$Exercício: quando o ponto não basta
Um corpo se move de modo que sua posição $x$ depende do tempo, e uma grandeza $y=x^2$ depende da posição. Se no instante considerado $x=3$ e $\dot x=2$, quanto vale $\dot y$?
Em Leibniz: $\dfrac{dy}{dt}=\dfrac{dy}{dx}\cdot\dfrac{dx}{dt}=2x\cdot\dot x=2\cdot3\cdot2=12$. A escrita de Newton dá o mesmo número, $\dot y=2x\dot x$, mas para chegar lá era preciso já saber a regra. A de Leibniz mostra por que ela vale, e também deixa escrever $\dfrac{dy}{dx}=2x$, a taxa em relação à posição, que os pontos não conseguem nomear.
Índice do capítulo · ← Napier e o logaritmo: a abreviação maravilhosa · Da exaustão à integral: Σ, ∫ e o número π →