Turing acredita que as máquinas pensam. Turing se deita com homens. Logo, as máquinas não pensam.

— Alan Turing, carta a Norman Routledge (1952)

O silogismo amargo que Turing escreveu a um amigo, logo depois da condenação, resume a sua vida: um homem que pensava com a lógica e foi julgado por quem não o entendia. A obra que ele deixou, porém, está em toda parte.

Na ciência da computação

A máquina de Turing continua sendo a definição oficial do que é calcular. Quando um cientista da computação quer dizer que um problema “não tem algoritmo”, quer dizer que nenhuma máquina de Turing o resolve; quando diz que um problema é “difícil”, conta os passos que uma máquina de Turing precisa dar.

Dessa contagem nasceu a pergunta mais famosa da área, P versus NP: todo problema cuja solução é fácil de conferir também é fácil de encontrar? Montar um quebra-cabeça é difícil; conferir um quebra-cabeça montado é fácil. Ninguém sabe se essa diferença é real ou só falta de engenho. O Instituto Clay oferece um milhão de dólares a quem responder.

Desde 1966, a Associação para Maquinaria da Computação entrega anualmente o Prêmio Turing, considerado o equivalente ao Nobel da computação.

Na criptografia e na estatística

A guerra contra a Enigma mostrou que a segurança de uma cifra não está no número de chaves, mas na ausência de defeitos que permitam eliminar a maioria delas de uma vez. A criptografia moderna nasceu dessa lição. E o deciban, via I. J. Good, ajudou a trazer a estatística bayesiana de volta ao centro da ciência.

Na biologia e na inteligência artificial

As equações da morfogênese estão na base de uma área inteira, a biologia matemática dos padrões. E o jogo da imitação ainda é a referência de qualquer discussão sobre se uma máquina pensa, agora que as máquinas conversam.

A estátua de Turing no Sackville Park, em Manchester, inaugurada em 2001. Ele está sentado num banco, segurando uma maçã.
A estátua de Turing no Sackville Park, em Manchester, inaugurada em 2001. Ele está sentado num banco, segurando uma maçã.David Dixon · Wikimedia Commons · CC BY-SA 2.0

A reparação

Durante décadas, o trabalho de Turing na guerra foi segredo de Estado, e a sua condenação, motivo de silêncio. A história começou a mudar em 1983, com a biografia escrita pelo matemático Andrew Hodges. Vieram depois:

  • a estátua de Manchester, em 2001, num parque ao lado da universidade;
  • o pedido de desculpas do governo britânico, em 2009;
  • o perdão real, em 2013, e a lei de 2017 que perdoou os outros condenados;
  • a nota de 50 libras com o seu rosto, lançada em 23 de junho de 2021, dia do seu aniversário.

Para lembrar

Exercício: conferir é fácil

Alguém afirma que $8\,633=89\cdot97$. Quanto trabalho dá conferir? E quanto daria encontrar os fatores sem a dica?

Conferir é uma multiplicação: $89\cdot97=89\cdot100-89\cdot3=8\,900-267=8\,633$. Encontrar exige testar divisores até $\sqrt{8633}\approx93$: são 24 primos, de 2 a 89, e só o último funciona. Com números de centenas de algarismos, conferir continua instantâneo e encontrar fica impraticável. É nessa assimetria que se apoia a criptografia da internet.

Exercício: o silogismo de Turing

O silogismo da epígrafe é válido? Onde está o erro?

Não é válido. As premissas falam de Turing, e a conclusão fala das máquinas. Que alguém tenha uma opinião e uma vida privada que outros desaprovam não diz nada sobre a verdade da opinião. Turing escreveu o silogismo justamente para zombar desse tipo de raciocínio.

Fontes: Andrew Hodges, Alan Turing: The Enigma (1983) · Prêmio Turing, ACM · P vs NP, Clay Mathematics Institute · Banco da Inglaterra, nota de 50 libras.


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