Compare duas frases:

$$1024=1024\qquad\text{e}\qquad 2^{10}=1024.$$

As duas são verdadeiras, e as duas dizem que um número é igual a ele mesmo: $2^{10}$ é $1024$. Mesmo assim, ninguém aprende nada com a primeira, e a segunda é uma pequena descoberta, que custa dez multiplicações. Se o igual só dissesse “estas duas coisas são a mesma”, as duas frases diriam exatamente o mesmo. Então o que a segunda tem a mais?

A estrela da tarde e a estrela da manhã

Gottlob Frege (1848–1925), professor de matemática em Jena, que fez do sinal de igual um problema filosófico.
Gottlob Frege (1848–1925), professor de matemática em Jena, que fez do sinal de igual um problema filosófico.Emil Tesch, c. 1905 · Wikimedia Commons · domínio público

Essa pergunta incomodou o matemático alemão Gottlob Frege, que respondeu a ela em 1892 num artigo curto, Sobre o sentido e a referência. O exemplo dele vem da astronomia. Os gregos antigos chamavam de Héspero a estrela brilhante que aparece no oeste ao entardecer, e de Fósforo a que aparece no leste antes do amanhecer. Descobrir que as duas eram o mesmo astro, o planeta Vênus, foi uma conquista. “Héspero é Héspero” não ensina nada; “Héspero é Fósforo” ensina.

A solução de Frege foi separar duas coisas que um nome carrega:

  • a referência (Bedeutung): o objeto para o qual o nome aponta, no caso o planeta Vênus;
  • o sentido (Sinn): o modo como o nome apresenta esse objeto, “o astro que brilha ao entardecer” ou “o astro que brilha ao amanhecer”.

Uma igualdade $a=b$ é verdadeira quando $a$ e $b$ têm a mesma referência. E é informativa quando eles têm sentidos diferentes, quando chegam ao mesmo objeto por caminhos diferentes.

Sentido e referência nos números

A matemática está cheia de nomes diferentes para o mesmo número:

$$4,\qquad 2+2,\qquad 2^2,\qquad \sqrt{16},\qquad \tfrac{8}{2},$$

e também “o único número primo par, somado a si mesmo”.

Todos têm a mesma referência. Mas cada um a apresenta de um jeito, e cada jeito conta uma história: $2+2$ diz como juntar, $2^2$ diz como multiplicar, $\sqrt{16}$ diz de que quadrado é o lado. É isso que o capítulo 2 chamou de diferença entre o significante e o objeto: o signo não é a coisa, e a mesma coisa tem muitos signos.

Daí uma consequência importante para quem escreve contas. Calcular é trocar uma escrita por outra de mesma referência e sentido mais útil. Em

$$\frac{x^2-9}{x-3}=\frac{(x-3)(x+3)}{x-3}=x+3\qquad(x\neq3),$$

as três expressões apontam para o mesmo valor, mas a terceira é a mais fácil de usar. Uma notação é ativa, no sentido deste livro, quando o seu sentido já mostra o caminho para outras escritas: o $2^{10}$ mostra que $2^{10}=2^5\cdot2^5=32\cdot32$, e o $1024$ não mostra nada.

A lei de Leibniz

Se duas escritas apontam para o mesmo objeto, deveria ser possível trocar uma pela outra em qualquer frase sem mudar a verdade. Gottfried Leibniz pôs essa ideia numa fórmula latina, que Frege cita com aprovação:

São as mesmas as coisas que podem ser trocadas uma pela outra salva veritate, sem prejuízo da verdade.

— Leibniz, citado por Frege em Os fundamentos da aritmética (1884), §65

É a regra que se usa o tempo todo em álgebra sem dar nome a ela. Se $x=3$, então $x^2+x=3^2+3=12$. Se $y=2x$, então $x+y=x+2x=3x$. Substituir iguais por iguais é o motor de toda conta.

Mas Frege notou que a regra falha num tipo especial de frase. Considere:

O aluno sabe que $2^{10}=2^{10}$.

Isso é verdade para qualquer aluno. Agora troque o segundo $2^{10}$ por $1024$, que é o mesmo número:

O aluno sabe que $2^{10}=1024$.

Isso pode ser falso. Quando a frase fala do que alguém sabe, acredita ou escreveu, o que importa é o sentido, e não só a referência. Os lógicos chamam esses lugares de contextos opacos. Dentro de uma conta, o igual permite trocar à vontade; dentro de uma frase sobre o que se sabe da conta, não.

Exercício: qual igualdade ensina mais?

Ordene da menos para a mais informativa: $7=7$, $7=\frac{14}{2}$, $2^{10}=1024$, $e^{i\pi}=-1$.

$7=7$ não ensina nada: mesmo sentido, mesma referência. $7=\frac{14}{2}$ ensina pouco, uma divisão. $2^{10}=1024$ exige dez multiplicações. $e^{i\pi}=-1$, a fórmula de Euler, liga a exponencial, os números imaginários e a geometria do círculo, e foi preciso um século de matemática para escrevê-la. As quatro têm a mesma forma, $a=b$; o que muda é a distância entre os dois sentidos.

Exercício: troque iguais por iguais

Se $x=2y$ e $y\neq0$, quanto vale $\dfrac{x+y}{x-y}$? Pela lei de Leibniz, troque $x$ por $2y$:

$$\frac{x+y}{x-y}=\frac{2y+y}{2y-y}=\frac{3y}{y}=3.$$

O resultado não depende de $y$. A troca fez o $x$ desaparecer e revelou que a expressão é constante, algo que não se via na forma original.


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