Muita gente ouviu dizer que Pascal “provou que Deus existe”. Ele não fez isso, e disse com todas as letras que não dava para fazer. O que ele propôs é mais curioso: já que a razão não decide a questão, trocar a pergunta. Em vez de “Deus existe?”, perguntar “em que vale mais a pena apostar?”. E responder a essa segunda pergunta com a matemática que tinha acabado de inventar com Fermat, a das partilhas justas.

Um papel cheio de rabiscos

Folhas autógrafas dos *Pensamentos*, coladas num grande álbum depois da morte de Pascal, numa exposição da Biblioteca Nacional da França em 2016. Pascal escrevia em pedaços de papel, em várias direções, e riscava muito.
Folhas autógrafas dos Pensamentos, coladas num grande álbum depois da morte de Pascal, numa exposição da Biblioteca Nacional da França em 2016. Pascal escrevia em pedaços de papel, em várias direções, e riscava muito.ActuaLitté · Wikimedia Commons · CC BY-SA 2.0

Nos últimos anos de vida, Pascal juntou anotações para um livro em defesa do cristianismo. Não chegou a escrevê-lo. Depois da sua morte, em 1662, os amigos encontraram centenas de fragmentos, alguns cortados com tesoura e presos por fios, e publicaram uma seleção em 1670 com o título de Pensamentos.

O fragmento da aposta é uma folha dobrada, escrita dos dois lados, com acréscimos nas margens e de cabeça para baixo. Os editores o chamam pelas primeiras palavras: “Infinito, nada”. É um diálogo entre Pascal e um interlocutor que não crê, talvez inspirado nos jogadores que ele conheceu na vida mundana de Paris, como o Cavaleiro de Méré.

A razão não decide

O ponto de partida é uma confissão de impotência:

Deus existe ou não existe. Mas para que lado nos inclinaremos? A razão nada pode determinar aqui. Há um caos infinito que nos separa. Joga-se um jogo, no extremo dessa distância infinita, em que vai dar cara ou coroa. Em que você vai apostar?

— Blaise Pascal, Pensamentos, fragmento “Infinito, nada”

O interlocutor responde que o certo é não apostar em nada. Pascal recusa a saída:

Sim, mas é preciso apostar. Isso não é voluntário: você está embarcado.

— Blaise Pascal, Pensamentos, fragmento “Infinito, nada”

Viver como quem crê ou viver como quem não crê já é uma escolha. Não escolher é escolher a segunda.

A tabela de quatro casas

Hoje a aposta se escreve como uma tabela. Há duas escolhas e dois estados do mundo:

Deus existe Deus não existe
Crer ganho infinito: “uma infinidade de vida infinitamente feliz” perde-se pouco: alguns prazeres
Não crer perde-se tudo ganha-se pouco: esses mesmos prazeres

Pascal percorre a tabela em três passos, cada um mais forte que o anterior. O filósofo Ian Hacking, num artigo de 1972, mostrou que são três argumentos diferentes, e que o terceiro é uma conta de valor esperado.

Primeiro passo: dominância. “Se você ganhar, ganha tudo; se perder, não perde nada. Aposte, então, que ele existe, sem hesitar.” Se crer fosse melhor ou igual em todas as colunas, não haveria nem o que calcular.

Segundo passo: a conta com chances iguais. O interlocutor objeta que perde alguma coisa, sim. Pascal aceita e faz as contas como num jogo de dados: com chances iguais de ganhar e perder, valeria a pena arriscar uma vida para ganhar duas; seria tolice não arriscar uma para ganhar três.

Terceiro passo: o infinito. E se as chances não forem iguais? Pascal responde que não importa:

Há aqui uma infinidade de vida infinitamente feliz a ganhar, uma chance de ganho contra um número finito de chances de perda, e o que você joga é finito.

— Blaise Pascal, Pensamentos, fragmento “Infinito, nada”

A conta

Seja $p$ a chance que você atribui à existência de Deus, por menor que seja, mas maior que zero. Seja $c$ o custo de uma vida de fé, um número finito, e $G$ o ganho se Deus existir. O valor esperado de crer é

$$E(\text{crer})=p\cdot G-(1-p)\cdot c.$$

Com $G$ finito, a conta pode dar qualquer coisa: depende de $p$, de $G$ e de $c$. Mas Pascal põe $G=\infty$. Então, para qualquer $p>0$,

$$p\cdot\infty-(1-p)\cdot c=\infty,$$

e nenhuma alternativa finita compete. É a mesma ideia da partilha: o que cada aposta vale é o prêmio multiplicado pela chance. A diferença é que o prêmio agora é infinito.

A primeira página dos *Pensamentos* num exemplar de uma contrafação, uma edição pirata copiada da edição de 1670. O primeiro capítulo se chama “Contra a indiferença dos ateus”.
A primeira página dos Pensamentos num exemplar de uma contrafação, uma edição pirata copiada da edição de 1670. O primeiro capítulo se chama “Contra a indiferença dos ateus”.Clermont Auvergne Métropole · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

Não é uma prova

Repare no que a conta não diz. Ela não aumenta em nada a chance $p$. Quem achava que Deus tinha uma chance em mil de existir continua achando, depois da aposta, que tem uma chance em mil. O argumento é sobre o que fazer, não sobre o que é verdade.

Pascal sabia disso. Logo depois da conta, o interlocutor diz: “Sou feito de tal maneira que não consigo crer.” E Pascal não lhe oferece uma demonstração. Aconselha que ele aja como os que creem, “tomando água benta, mandando dizer missas”, e que trabalhe para se convencer “não pelo aumento das provas de Deus, mas pela diminuição das suas paixões”. Para Pascal, a fé vinha do coração, não de um cálculo; a aposta servia apenas para mostrar ao jogador que a indiferença era a pior das escolhas.

As objeções

A aposta foi criticada desde que apareceu, e as críticas também ensinam matemática.

  • Quais deuses? Em 1746, Denis Diderot escreveu que “um imã poderia dizer o mesmo”. Se cada religião promete um ganho infinito, a tabela não tem duas linhas, tem dezenas, e o infinito aparece em todas.
  • Dá para crer por decisão? Ninguém passa a acreditar numa coisa só porque concluiu que seria vantajoso acreditar. Pascal concordava, e por isso falou em hábitos, não em decisões.
  • O infinito estraga a conta. Uma pessoa que joga uma moeda para decidir se vai crer tem chance $\frac12$ de crer, e seu valor esperado é $\frac12\cdot p\cdot\infty=\infty$, igual ao de quem crê com certeza. Com o infinito na tabela, todas as estratégias que deixam alguma chance de crer empatam, e a conta deixa de distinguir as escolhas.
  • O tom. Voltaire, em 1734, achou a ideia “um pouco indecente e pueril”: tratar a salvação como um jogo de cara ou coroa lhe parecia rebaixar o assunto.
Exercício: arriscar uma vida para ganhar duas

Com chances iguais, você arrisca 1 para ganhar 2. Vale a pena? O valor esperado da aposta é

$$\frac12\cdot2-\frac12\cdot1=\frac12>0.$$

Vale. Para ganhar 3, o valor esperado é $\frac12\cdot3-\frac12\cdot1=1$, ainda maior. É o segundo passo de Pascal, feito com números.

Exercício: a aposta com um ganho finito

Suponha que o ganho não seja infinito, mas $G=1000$, que o custo seja $c=5$ e que a chance seja $p=\frac1{1000}$. Vale a pena crer?

$$E=\frac1{1000}\cdot1000-\frac{999}{1000}\cdot5=1-4{,}995=-3{,}995<0.$$

Não vale. Com um ganho finito, a resposta depende dos números, e uma chance muito pequena pode derrubar o argumento. Só o infinito torna a conta imune a qualquer $p>0$, e é justamente o infinito que gera a objeção da moeda.

Fontes: Blaise Pascal, Pensamentos, fragmento “Infini rien” (Lafuma 418, Sellier 680) · Ian Hacking, “The logic of Pascal’s wager”, American Philosophical Quarterly, 9(2), 1972, p. 186–192 · Pascal’s Wager, Stanford Encyclopedia of Philosophy.


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