O jogo da imitação: uma máquina pode pensar?
Proponho considerar a pergunta: “As máquinas podem pensar?”
— Alan Turing, “Computing Machinery and Intelligence” (1950)
Assim começa o artigo que Turing publicou em 1950 na revista de filosofia Mind. Logo na frase seguinte, ele desiste da pergunta. Para respondê-la, seria preciso definir “máquina” e “pensar”, e qualquer definição viraria uma discussão sem fim sobre palavras. Turing propõe trocá-la por outra, que tem a vantagem de poder ser testada.
As regras do jogo
O jogo original tem três participantes: um homem, uma mulher e um interrogador, em salas separadas. O interrogador se comunica com os outros dois só por mensagens escritas e precisa descobrir quem é o homem e quem é a mulher. O homem tenta enganá-lo; a mulher tenta ajudá-lo.
Agora troque o homem por uma máquina. A pergunta passa a ser: o interrogador erra com a mesma frequência quando um dos participantes é uma máquina? Se a máquina conversa tão bem que o interrogador não consegue distingui-la de uma pessoa, Turing propõe que deixemos de lado a discussão sobre se ela “realmente” pensa. Esse é o jogo da imitação, que hoje se chama teste de Turing.
O texto traz até um exemplo de conversa. À pergunta “some 34 957 a 70 764”, a máquina espera uns 30 segundos e responde “105 621”. A conta certa é 105 721. Mais adiante no artigo, Turing explica que uma máquina boa no jogo erraria contas de propósito, de vez em quando, para parecer humana.
A previsão
Turing não disse que as máquinas da época passariam no teste. Fez uma previsão com números:
Acredito que, daqui a uns cinquenta anos, será possível programar computadores com uma capacidade de armazenamento de cerca de 10⁹ para jogar o jogo da imitação tão bem que um interrogador médio não terá mais de 70% de chance de fazer a identificação correta depois de cinco minutos de perguntas.
— Alan Turing, “Computing Machinery and Intelligence” (1950)
O “$10^9$” é a capacidade em dígitos binários, ou bits. Em linguagem de hoje, $10^9$ bits são $\frac{10^9}{8}=1{,}25\times10^8$ bytes, cerca de 125 megabytes: menos que a memória de qualquer celular. Turing acertou bem na memória e errou para menos no tempo: as conversas convincentes com máquinas só vieram nos anos 2020, com os grandes modelos de linguagem, que usam milhares de vezes mais memória do que ele imaginou.
As objeções
Metade do artigo responde a objeções. Algumas:
- A objeção teológica: pensar é função da alma imortal, que Deus deu aos homens e não às máquinas. Turing responde que, se Deus quisesse, poderia dar uma alma a uma máquina.
- A objeção matemática: o teorema de Turing e o de Gödel mostram que há perguntas que nenhuma máquina responde. Turing concorda, mas observa que nada indica que os seres humanos não tenham limites parecidos.
- A objeção de Lady Lovelace: em 1843, Ada Lovelace escreveu que a máquina analítica de Babbage “não tem pretensão de originar nada; só faz o que sabemos ordenar que ela faça”. Turing responde que as máquinas o surpreendiam com frequência, e que uma máquina capaz de aprender faria coisas que o programador não previu.
Essa última resposta é a mais profética. No fim do artigo, Turing sugere que, em vez de programar um cérebro adulto, seria melhor programar uma “máquina criança” e educá-la, com recompensas e punições. É, em poucas linhas, a ideia do aprendizado de máquina.
Exercício: quanto é 10⁹ bits?
Quantos livros de 500 páginas cabem em $10^9$ bits, se cada página tem 2 000 caracteres e cada caractere ocupa 8 bits?
Um livro tem $500\cdot2000\cdot8=8\times10^6$ bits. Em $10^9$ bits cabem $\frac{10^9}{8\times10^6}=125$ livros. Turing achava que a memória de uma biblioteca pequena bastaria para conversar como uma pessoa.
Exercício: o que significa 70%?
Se o interrogador chutasse ao acaso entre os dois participantes, qual seria a chance de acerto? O que quer dizer “não mais de 70%”?
Chutando, acertaria 50% das vezes. “Não mais de 70%” quer dizer que, depois de cinco minutos, o interrogador médio erra em pelo menos 30% das partidas: a máquina engana bastante gente, embora não engane todo mundo.
Fontes: Alan Turing, “Computing Machinery and Intelligence”, Mind, 59 (1950), p. 433–460 · Ada Lovelace, notas à tradução do artigo de Menabrea sobre a máquina analítica (1843) · The Turing Test, Stanford Encyclopedia of Philosophy.
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