Linha do tempo

  1. 1776
    Nasce em 1º de abril, em Paris, filha de um rico comerciante de seda.
  2. 1789
    Aos 13 anos, durante a Revolução, lê a história da morte de Arquimedes e decide estudar matemática.
  3. 1794
    É fundada a Escola Politécnica, que não aceita mulheres. Sophie consegue as apostilas dos cursos e envia um trabalho a Lagrange com o nome de Monsieur Le Blanc.
  4. 1801
    Gauss publica as Investigações aritméticas.
  5. 1804
    Começa a escrever a Gauss, também como Monsieur Le Blanc.
  6. 1806
    Tropas francesas ocupam Braunschweig. Sophie pede a um general amigo que proteja Gauss, que assim descobre quem ela é.
  7. 1809
    A Academia de Ciências anuncia um prêmio para a teoria matemática das placas vibrantes.
  8. 1816
    Na terceira tentativa, ganha o prêmio. É a primeira mulher a receber um prêmio da Academia.
  9. 1823
    Legendre divulga o teorema dela sobre o último teorema de Fermat.
  10. 1829
    Descobre que tem câncer de mama.
  11. 1831
    Morre em 27 de junho, em Paris, aos 55 anos.
  1. Cresce na casa do pai, um rico comerciante de seda. Aos 13 anos, durante a Revolução, decide estudar matemática.
  2. A escola não aceita mulheres. Ela consegue as apostilas e manda um trabalho a Lagrange como Monsieur Le Blanc.
  3. Escreve a Gauss sobre teoria dos números. Em 1806, com a cidade ocupada, pede a um general francês que proteja Gauss, que assim descobre quem ela é.
  4. Na terceira tentativa, ganha o prêmio da Academia sobre as placas vibrantes. É a primeira mulher premiada pela Academia.
  5. Morre em 27 de junho, aos 55 anos. Diz-se que a certidão de óbito a registrou como rentière, pessoa que vive de rendas, e não como matemática.
A Paris de Sophie Germain, com uma linha para as cartas enviadas a Gauss, em Braunschweig. Mapa: © colaboradores do OpenStreetMap
  1. 1776–1794 · Rua Saint-Denis
  2. 1794 · Escola Politécnica
  3. 1804–1806 · Braunschweig
  4. 1816 · Instituto de França
  5. 1831 · Cemitério do Père-Lachaise
A Paris de Sophie Germain, com uma linha para as cartas enviadas a Gauss, em Braunschweig.

Uma menina trancada em casa

Marie-Sophie Germain nasceu em Paris em 1776, numa casa da rua Saint-Denis. O pai, Ambroise-François Germain, era um comerciante de seda rico e culto, que em 1789 seria eleito deputado nos Estados Gerais, a assembleia que deu início à Revolução Francesa. A casa da família tinha uma boa biblioteca, e foi nela que a menina passou os anos mais agitados da história da França.

Em 1789, quando a Bastilha caiu, Sophie tinha 13 anos. As ruas de Paris eram perigosas, e ela ficava em casa, lendo. Num livro de história da matemática, de Jean-Étienne Montucla, encontrou a história da morte de Arquimedes: durante o saque de Siracusa, em 212 a.C., o velho sábio estava tão absorto num problema de geometria desenhado na areia que não respondeu a um soldado romano, que o matou. Sophie concluiu que, se alguém podia se concentrar tanto num problema a ponto de esquecer a própria morte, aquele assunto devia ser o mais fascinante do mundo.

A tinta congelada

Os pais acharam a ideia imprópria para uma moça e tentaram impedi-la. O primeiro biógrafo dela, Guglielmo Libri, que a conheceu, conta que eles tiravam à noite a luz, o fogo e até as roupas do quarto, para que ela não estudasse. Sophie esperava a família dormir, enrolava-se em cobertores e estudava à luz de velas escondidas. Numa manhã de inverno, encontraram-na dormindo sobre a mesa, com a tinta congelada no tinteiro e a lousa coberta de contas. Os pais desistiram.

Sozinha, aprendeu latim e grego para ler Newton e Euler no original, e cálculo diferencial pelos livros de Étienne Bézout.

Monsieur Le Blanc

Em 1794 foi fundada em Paris a Escola Politécnica, com os melhores professores da França, entre eles Lagrange. Mulheres não podiam se matricular. Mas a escola tinha uma prática nova: distribuía as apostilas das aulas a quem pedisse. Sophie conseguiu as do curso de análise de Lagrange, estudou-as e, ao fim do curso, fez o que os alunos faziam: escreveu um trabalho com observações e o enviou ao professor.

Assinou com o nome de um ex-aluno que tinha deixado Paris, Antoine-Auguste Le Blanc. Lagrange achou o trabalho tão bom que quis conhecer o autor. Descobriu uma moça de 18 anos. Em vez de se escandalizar, foi visitá-la, elogiou-a e passou a orientá-la. A notícia correu, e Sophie começou a ser recebida pelos cientistas de Paris.

As cartas a Gauss

Em 1801, o alemão Carl Friedrich Gauss publicou as Investigações aritméticas, o livro que fundou a teoria dos números moderna. Sophie o estudou a fundo e, em 1804, escreveu ao autor, de novo como Monsieur Le Blanc, com demonstrações novas sobre temas do livro. Gauss respondeu com entusiasmo, e as cartas continuaram por três anos. Ela explicaria depois a escolha do pseudônimo: tinha medo do ridículo que se associava, na época, ao título de “mulher sábia”.

Em 1806, os exércitos de Napoleão invadiram a Prússia e ocuparam Braunschweig, a cidade de Gauss. Sophie lembrou-se de Arquimedes. Pediu a um amigo da família, o general Joseph-Marie Pernety, que garantisse a segurança do matemático. Pernety mandou um oficial, que disse a Gauss que estava ali a pedido de uma “Mademoiselle Germain”. Gauss não fazia ideia de quem era. Na carta seguinte, Sophie contou a verdade.

Mas como lhe descrever a minha admiração e o meu espanto ao ver o meu estimado correspondente, Monsieur Le Blanc, metamorfosear-se nesta personagem ilustre […]. Quando uma pessoa do sexo que, pelos nossos costumes e preconceitos, deve encontrar infinitamente mais obstáculos e dificuldades que os homens para se familiarizar com estas pesquisas espinhosas, consegue mesmo assim vencer esses entraves e penetrar no que elas têm de mais oculto, é preciso sem dúvida que tenha a mais nobre coragem, talentos totalmente extraordinários e um gênio superior.

— Carl Friedrich Gauss, carta a Sophie Germain (30 de abril de 1807)

Em 1808, Gauss trocou a teoria dos números pela astronomia, e a correspondência rareou. Os dois nunca se encontraram.

O prêmio das placas

Em 1808, o físico alemão Ernst Chladni mostrou em Paris, diante de Napoleão, as figuras que a areia forma sobre placas vibrantes. O imperador ficou tão impressionado que financiou um prêmio da Academia de Ciências para quem explicasse o fenômeno com uma teoria matemática. O prêmio foi anunciado em 1809.

Quase ninguém tentou, porque Lagrange tinha dito que os métodos da época não bastavam. Sophie tentou três vezes. Em 1811, foi a única concorrente, e o trabalho foi recusado por erros de cálculo. Em 1813, recebeu uma menção honrosa. Em 1816, ganhou: foi a primeira mulher a receber um prêmio da Academia. Não compareceu à cerimônia.

O prêmio não lhe abriu as portas. Siméon-Denis Poisson, que fazia parte do júri, publicou a sua própria teoria e passou a tratá-la com frieza. Só mais tarde, graças a Joseph Fourier, secretário da Academia, ela pôde assistir às sessões, a primeira mulher a fazê-lo sem ser esposa de um membro.

Figuras do livro *Pesquisas sobre a teoria das superfícies elásticas*, que Sophie Germain publicou por conta própria em 1821: uma lâmina presa num muro e curvada por um peso.
Figuras do livro Pesquisas sobre a teoria das superfícies elásticas, que Sophie Germain publicou por conta própria em 1821: uma lâmina presa num muro e curvada por um peso.Sophie Germain, 1821 · ETH-Bibliothek Zürich · Wikimedia Commons · domínio público

Fermat

Durante todos esses anos, a paixão dela continuou sendo a teoria dos números. Numa carta a Gauss de 1819, descreveu um plano para atacar o último teorema de Fermat, o problema mais famoso da matemática. O plano completo não funcionou, mas uma parte dele deu o resultado mais importante sobre o problema em mais de um século. Legendre o divulgou em 1823, numa nota de rodapé que lhe dava o crédito. É o teorema de Sophie Germain.

Os últimos anos

Em 1829, Sophie descobriu que tinha câncer de mama. Continuou trabalhando, em matemática e em filosofia, quase até o fim. Morreu em Paris em 27 de junho de 1831, aos 55 anos, e está sepultada no cemitério do Père-Lachaise. Conta-se que, na certidão de óbito, a profissão anotada foi rentière, pessoa que vive de rendas, e não matemática.

Gauss tinha convencido a Universidade de Göttingen a conceder-lhe um título de doutora honorária. Ela morreu antes de recebê-lo.

Fontes: biografia de Sophie Germain, MacTutor · Dora Musielak, Prime Mystery: The Life and Mathematics of Sophie Germain (2015) · Louis L. Bucciarelli e Nancy Dworsky, Sophie Germain: An Essay in the History of the Theory of Elasticity (1980).


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